Chico Buarque lança DVD e Blu-Ray

Registro da última turnê do compositor chega às lojas

Após versão em CD, o registro da última turnê de Chico Buarque chega às lojas em vídeo (DVD e Blu-Ray), lançado pelo selo Biscoito Fino. Na Carreira retrata o espetáculo Chico, que percorreu nove cidades brasileiras entre novembro de 2011 e maio de 2012.

A gravação foi feita no Vivo Rio, em fevereiro de 2012, e trata-se de um registro integral do show, sem inserções ou depoimentos. Segundo as diretoras, Dora Jobim (neta do mestre) e Gabriela Gastal, a força do compositor e suas músicas tornava grandes manobras desnecessárias.

Após tantos documentários, tantas imagens geradas na carreira de Chico Buarque, o registro poderia ser visto apenas como mais um produto mercadológico. Porém, tal como as lentes podem ser algo indiferentes diante da obra buarquiana – como apontaram as diretoras –, sempre serão “bonitas as canções”. E, mais do que isso, para um admirador, é válido conhecer os novos arranjos preparados para velhas peças.

Porém, no fim das contas, por conta de sua simplicidade, o registro soa mais interessante para quem não pôde ir ao espetáculo ou gosta de relembrar momentos importantes. Como a interpretação de músicas inéditas nos shows de Chico, a exemplo de “Geni e o Zepelim” e a versão do rapper Criolo para “Cálice” – em tempos de eleição, vale lembrar que o compositor já teve o microfone desligado pela censura por conta da canção original. Vivemos em tempos vitoriosos. Com a liberdade de testemunhar livremente a criação de Chico e sua constante evolução.

Chico Buarque lança CD ao vivo

Chico Buarque no HSBC Brasil, em São Paulo. Foto: Laís Aranha (www.laisaranha.com)

Amanhã chega às lojas o CD Na Carreira, gravado durante a última turnê de Chico Buarque. O sexto álbum ao vivo do compositor foi registrado no Vivo Rio, no Rio de Janeiro, e conta com todas as músicas apresentadas na turnê, realizada entre novembro de 2011 e maio de 2012. Há dez músicas do último disco, Chico, e mais de 20 canções de diversas fases de sua obra. Dentre estas, “Anos Dourados”, “Geni e o Zepelim”, “Bastidores” e “Baioque”.

Confira as fotos do show que rolou no HSBC Brasil, em São Paulo!

Os pequenos eventos de Chico Buarque

Chico Buarque no HSBC Brasil, em São Paulo. Foto: Laís Aranha (www.laisaranha.com).

Quando se assiste a um show de Chico Buarque, não se vê apenas um artista no palco. O que se vê é um monumento com raízes profundas na história recente do país. Raízes que atravessam seu papel na resistência ao regime militar, sua atuação política contemporânea, seu time de futebol, seus livros, seus discos, sua aparência. Chico Buarque é um fenômeno pop.

O músico-escritor-dramaturgo já foi tema de numerosos e extensos documentários, livros, matérias jornalísticas, trabalhos acadêmicos, vestibulares. Já teve suas canções homenageadas em sem-número de obras musicais. Quando se fala sobre Chico, o nome não confunde-se com o de outros Chicos. E quando se trata daquele de sobrenome Buarque, nada disso escapa à percepção.

Chico Buarque. Foto: Laís Aranha.

Eis que o homem estava no palco do HSBC Brasil, em São Paulo, no domingo 11. E o que se espera de uma plateia que não assiste a um cantor e compositor, mas um monumento? Espera-se a aclamação de qualquer gesto, a reverência diante de qualquer olhar. E assim explica-se que tudo seja recebido com aplausos eufóricos, independente do ocorrido no palco.

Fique claro, o que acontece no palco é supremacia musical. Chico é acompanhado pelo maestro Luiz Claudio Ramos, regente de um time de músicos exímios, instrumentistas com requintes de perfeição. Dentre eles, os conhecidos Chico Batera (percussão) e Wilson das Neves (bateria). Mas o fato é que, na levada de seu protagonista, nenhum dos músicos tenta transformar a apresentação em um espetáculo do entretenimento, reluzente aos olhos, que absorva o público. A intenção parece ser apenas mostrar à plateia com excelência aquilo que ela já conhece.

Reprodução de "O Bloco Carnavalesco", de Portinari, ao fundo. Foto: Laís Aranha.

A elegância e a pluralidade da música de Chico Buarque aparece de forma discreta. Aparece quando o pianista João Rebouças troca seu instrumento pelo cavaquinho – no mesmo momento em que, curiosamente, o baixista Jorge Helder troca a eletricidade por um imponente contrabaixo. O repertório caminha por todas as fases da obra buarquiana e conta com inúmeros hits, de “Geni e o Zepelim“ a “Anos dourados”, de “Baioque” à excelente “Sinhá”, canção final do novo álbum Chico. A atmosfera de grandiosidade artística e intelectual é adornada pelo cenário rotativo ao fundo do palco, com imagens de Cândido Portinari e Oscar Niemeyer.

Talvez por conta da discrição e quase formalidade do show, acontecimentos que escapem ao protocolo transformam-se em grandes eventos. Uma queda na energia elétrica gera expectiva no público, em um clima de “e agora, Chico?”. Mas o cantor, experiente, não tece comentários. Levanta-se calmamente e cochicha com seus músicos. O produtor vai até a frente do palco e, em voz alta, explica o problema, causado pela chuva. Passam alguns minutos, todos posicionam-se e Chico enfim retoma: “como eu ia dizendo…” e volta exatamente aos mesmos versos que cantava antes da interrupção.

Chico Buarque. Foto: Laís Aranha.

Um observador atento percebia que Chico “quase” conseguia beber água em alguns momentos, por conta do curto intervalo entre as canções. Até que, após um rápido gole, corre para alcançar o braço do violão e erra o primeiro acorde. O cantor volta-se para o maestro Luiz Claudio Ramos, pontapé inicial da maioria das músicas e, com sua gargalhada inconfundível, diz: “ele nunca me deixa beber água”. Pequenas coisas tornam-se grandes eventos.

Ao fim do show, após o bis já previsto e calorosos aplausos em pé, o público se recusa a ir embora. Porém, Chico não retorna. Talvez por conta do protocolo a ser seguido. Talvez porque, se sucumbisse aos aplausos insistentes do público, jamais sairia de seu foco.

Novo disco de Chico Buarque

Capa do novo disco de Chico Buarque

Quando Chico Buarque lança um disco, é de se pegar o encarte e dar atenção. Para prolongar um pouco mais a experiência, aproveitar tudo o que pode ser aproveitado. E neste novo álbum, intitulado Chico, com lançamento oficial em 22 de julho, o livreto vem simples, vem direto. Sem ilustrações, só cores chapadas no fundo das letras. Afinal de contas, com a obra que este artista construiu, o que mais é preciso apresentar senão letras e canções? Embora a vida pessoal e a personalidade pública se mesclem à criação – ao menos aos olhos do público –, o que interessa é a arte.

A primeira faixa, Querido diário, já havia sido lançada há algumas semanas, e mostrava um pouco do que viria. Passa a segunda, Rubato, e é na terceira canção que os ouvidos deste que escreve ficaram admirados. Em Essa pequena, Chico canta “tipo um blues”, como ele mesmo definiu em entrevista, e versa sobre as intempéries de uma relação que, embora faça o protagonista penar, dá a ele um blues que “já valeu a pena”. Uma alquimia de beleza rara, onde a canção fala sobre si mesma. Isso sem contar com os toques de genialidade dos solos bluesy para violino e violão, executados, respectivamente, por Nicolas Krassik e Luiz Claudio Ramos. Este último, aliás, o responsável pela direção musical, produção musical e todos os arranjos do disco.

A comentada participação de Thais Gulin vem em Se eu soubesse, também presente no último disco da cantora, em outra versão. A imprensa nativa especula sobre um possível duo romântico entre as vozes desta canção há tempos, mas isso não importa. O que vale é a aura descompromissada, divertida, da interpretação. Vale o eu lírico feminino, consagrado na obra de Chico, que aparece na letra. E vale, muito, o toque definitivo da grande harpista Cristina Braga.

Ainda sobre as letras, em Sem você 2, o cantor declara: “Sem você / É um silêncio tal / que ouço uma nuvem / a vagar no céu”. Faz parecer que, quando se aprende a traduzir uma alma, não se esquece jamais. Em Barafunda, o compositor-escritor faz uma abordagem sensível e bem-humorada dos esquecimentos de uma memória senil. “Misturam-se os fatos / as fotos são velhas”, mas “a vida é bela”.

Ao fim do disco, o ouvinte se depara com uma parceria entre Chico Buarque e João Bosco. Sinhá é um afro-samba de melodia forte, arranjo denso. Uma combinação de sentimento, poesia e retrato histórico feita com a seriedade que somente esses dois mestres da música brasileira poderiam fazer. Uma canção boa ao ponto das lágrimas.

O disco passa rápido, como uma paixão fulminante que toma a alma, os sentidos, a razão. Mas que não termina, pois pode sempre começar de novo. Obrigado, Chico.

Chico Buarque, Tom Jobim e Noel Rosa

Tom Jobim e Chico Buarque eram admiradores confessos da obra de Noel Rosa. Há registros de versões gravadas, como João Ninguém por Tom, e Filosofia, por Chico. No entanto, há um registro da extinta TV Manchete, disponível no YouTube, que merece amplo conhecimento. Nele, Tom e Chico, acompanhados por Danilo e Dori Caymmi, interpretam os clássicos de Noel Provei e Três Apitos.

Ao fim das canções, vale conferir o comentário curioso do maestro soberano sobre a tradição oral que se tornaram algumas canções de Noel, que fazem com que os mesmos versos sejam cantados de maneiras diferentes.

Reproduzimos os vídeos a seguir, em benefício da divulgação deste momento de grande sofisticação musical, com aval da equipe do Showlivre.com.